Que interesses estão em jogo na COP 6?

Moscou, Rússia – “A gente tem a nítida impressão de que a delegação brasileira pode estar sendo orquestrada por organizações não-governamentais (ONGs) antitabagistas.”

A frase do deputado estadual Marcelo Moraes (PTB), pronunciada em alto e bom som diante do chefe da representação do governo federal que defende os interesses do País na COP 6, Carlos Cuenca, do Ministério das Relações Exteriores, dá o tom da desconfiança e da insatisfação que ontem tomou conta das lideranças da cadeia produtiva e das autoridades, incluindo prefeitos e deputados estaduais, presentes ao evento realizado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), em Moscou, na Rússia.

Por volta das 18 horas, no horário de Moscou, e após o encerramento das atividades do dia na Conferência das Partes da Convenção-Quadro para Controle do Tabaco (FCTC, na sigla em inglês), Cuenca concedeu breve audiência ao grupo ligado ao setor produtivo, que veio à Rússia para acompanhar de perto, ainda que sem acesso ao plenário, o desenrolar das discussões.

Muitos elementos presenciados nos dois primeiros dias da COP 6 têm deixado a comitiva com uma pulga atrás da orelha em relação aos reais propósitos que a delegação oficial brasileira poderia estar defendendo.

ENTENDA

Tudo começou com a votação, ainda na segunda-feira pela manhã, que resultou na retirada do público em geral, apenas ouvinte, de ala da plenária, motivando protestos. Vários membros ligados ao setor produtivo no Brasil encontravam-se naquele espaço, e tiveram de sair por conta de uma medida que teve o apoio da própria delegação nacional.

Novo fato foi agregado ontem, quando, para surpresa dos profissionais da imprensa que vieram cobrir os debates em Moscou, também esses jornalistas foram barrados na entrada da sala, sob argumento de que os temas em pauta eram de único interesse dos organismos oficiais na área da saúde.

Pessoalmente, quando em certa ocasião do dia questionei Cuenca acerca da atitude, mencionando as razões que poderiam estar levando as delegações a tratar com tamanho sigilo os assuntos da pauta – num evento oficial e, portanto, da sociedade como um todo – fui retrucado por ele, em tom irônico, com a seguinte pergunta: “Tu és mesmo jornalista?”. Como a colocar sob dúvida a razão da insistência em ter acesso, e não apenas por meio de comentários lacônicos, ao teor dos pronunciamentos.

Para ampliar a surpresa das lideranças do setor, na audiência concedida ontem, Cuenca dirigiu-se à sala acompanhado de três membros da delegação e de vários representantes de ONG’s antitabagistas, quando na verdade a reunião havia sido solicitada apenas com o chefe do grupo oficial. Em poucos minutos, uma das militantes dirigiu-se a Cuenca, na mesa, e entregou-lhe um papel. Imediatamente, este anunciou que a conversa não estava aberta a jornalistas, e que a partir daquele momento não teriam acesso às audiências.

Nesses tons tem sido conduzido, em Moscou, o evento de caráter oficial da OMS, em que ONG’s revelam ter muito mais poder e influência do que autoridades e representantes de entidades da sociedade. Não por acaso, em mais de uma ocasião, lideranças afirmam temer, a partir do que ocorre na Rússia, o que aguarda pela socioeconomia da região Sul.

Romar Beling/enviado especial
romar@editoragazeta.com.br
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