Polícia Federal investiga fraude no Pronaf na região de Santa Cruz

Santa Cruz do Sul – Uma investigação da Polícia Federal aponta que Santa Cruz do Sul pode ter sido o centro operacional de um suposto esquema contra o Sistema Financeiro Nacional que teria lesado cerca de 6 mil agricultores da região nos últimos anos por meio de fraudes em financiamentos do Programa Nacional de Agricultura Familiar (Pronaf) intermediados pelo Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA).

O inquérito teve início em 2012, a partir de uma denúncia levada por um produtor rural à Delegacia da PF de Santa Cruz. O esquema estaria sendo praticado há pelo menos cinco anos com ramificações em vários municípios do Vale do Rio Pardo, como Sinimbu, Vera Cruz, Venâncio Aires e Passo do Sobrado. Segundo apurou PF, os recursos eram liberados pelo governo federal, mas os agricultores tinham acesso a apenas parte ou nenhum valor, o que levou a um elevado grau de inadimplência. As verbas seriam desviadas para abastecer caixas de campanhas eleitorais. O montante ainda não teria sido completamente apurado.

Dentre os investigados, estão Wilson Rabuske e Maiquel Raenke, vereadores em Santa Cruz e Sinimbu pelo PT. Rabuske é coordenador do MPA em Santa Cruz e Raenke atuou na entidade em Sinimbu até 2012. Também é apurada a participação do deputado federal e candidato à reeleição pelo PT, Elvino Bohn Gass. Além disso, pelo menos outras 10 pessoas seriam investigadas, incluindo funcionários do MPA e servidores do Banco do Brasil.

Até o momento, a Polícia Federal não se pronunciou sobre a investigação, que corre em segredo de Justiça. No início da semana, cerca de 60 agentes da PF foram deslocados para Santa Cruz para deflagrar a operação, mas recuaram por ordem do Supremo Tribunal Federal (STF). A determinação teria partido de um pedido do Ministério Público Federal (MPF), que alegou que os mandados de busca e apreensão não poderiam ser cumpridos antes da próxima segunda-feira, um dia depois das eleições.

Na quinta-feira, o setor de Comunicação Social da PF informou à Gazeta do Sul que não tinha conhecimento da operação. Na sexta-feira, o Ministério do Desenvolvimento Agrário anunciou que enviará técnicos na próxima semana ao Vale do Rio Pardo para ajudar agricultores que alegam ter sido prejudicados.

“NÃO SEI PARA ONDE FOI MEU DINHEIRO”

Otávio e Isolde Müller fizeram financiamento, mas não receberam todo o dinheiro

Produtores Otávio e Isolde Müller

Um dos produtores que pode ter sido vítima do esquema é Otávio Müller, de 48 anos, morador de Linha Felipe Néry, na região de Boa Vista, interior de Santa Cruz do Sul. Em outubro de 2012, após sofrer prejuízos em sua propriedade por conta da seca, Müller procurou o MPA para solicitar um crédito emergencial de R$ 10 mil via Pronaf. Quando ele e a esposa Isolde procuraram uma agência do Banco do Brasil cerca de um mês depois, foram informados que o dinheiro já havia sido liberado pelo governo federal mas que estaria “retido” e que apenas o MPA poderia autorizar o acesso. “Quando fui ao MPA, porém, me disseram que já tinham feito a parte deles e que o problema era com o banco. E continuou esse empurra-empurra durante cinco meses. Íamos duas ou três vezes por mês ao MPA. Estávamos praticamente na miséria”, relata.

Inconformado, por volta de março do ano passado Müller alegou, junto ao MPA, que denunciaria o caso à imprensa. Com isso, conseguiu a liberação de R$ 3 mil. O restante do valor, porém, diz jamais ter visto. Surpreendeu-se, no entanto, quando, ao observar extratos de sua conta bancária, que o valor havia sido depositado e transferido para uma conta da Aspac sem que tivesse tomado conhecimento. Hoje, por conta da dívida, que afirma não ter condições de quitar e que sequer sabe qual é o tamanho exato, embora acredite que chegue próximo a R$ 50 mil, está registrado junto ao Serasa, o que já o impediu de fazer outros financiamentos. “Não sei para onde foi o meu dinheiro”, alega. O agricultor foi um dos que levou a situação à Polícia Federal.

Pedro Garcia
pedro.garcia@gazetadosul.com.br
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