O que seria de Passa Sete sem o tabaco?

Santa Cruz do Sul/RS – A preocupação com o andamento da comercialização da safra 2014/15 de tabaco no Sul do Brasil gera expectativa não apenas entre os produtores rurais, mas também em centenas de municípios envolvidos com a atividade, muitos dos quais têm nela a principal fonte de receita. É o caso de Passa Sete, localidade de 5.400 habitantes, na região serrana do Vale do Rio Pardo, no Rio Grande do Sul, próximo a Sobradinho.

Como relata o prefeito Vanderlei Batista da Silva, o retorno financeiro não tem sido satisfatório para os agricultores que negociaram parte da produção. “O pessoal está realmente apavorado”, afirmou, por telefone, ao Portal do Tabaco. A cultura está presente em 3.250 hectares e é a grande base do Produto Interno Bruto (PIB) calculado em cerca de R$ 70 milhões.

Vanderlei foi produtor de tabaco por cerca de 15 anos nas localidades de Campo de Sobradinho e Serra Velha, e diz compreender bem a angústia que toma conta do meio rural. Aos 60 anos, traz a experiência de quem sempre foi agricultor (hoje produz soja) e de quem já sentiu as tensões inerentes à comercialização da safra, ao lado da esposa Tatiana e dos filhos Ricardo, Rafael e Anderson.

Das cerca de 1.200 propriedades rurais do município, pelos seus cálculos 95% estão diretamente voltadas ao tabaco. “A cultura é, disparada, a principal fonte de renda no nosso interior e, por extensão, a geradora de receita em Passa Sete. Somos um município iminentemente rural”, frisa. Como salienta, além do fato de a população urbana ser estimada em pouco mais de 500 moradores pelo IBGE, em contrapartida as mais de 4.600 que residem no interior, inclusive os que moram na cidade mantêm seus vínculos com o campo.

Prefeito Vanderlei Batista da Silva (no centro da foto) diz que tabaco responde por 95% das riquezas geradas em Passa Sete

Prefeito Vanderlei Batista da Silva (no centro da foto) diz que tabaco responde por 95% das riquezas geradas em Passa Sete

“TUDO SOBE, MAS O TABACO BAIXA”

O prefeito diz que tem circulado pelo interior a fim de saber como está a comercialização da safra, e não esconde a preocupação. “Não sei o que vai ser de nosso interior nos próximos anos. Está todo mundo desanimado”, refere. “Os mais jovens não querem mais saber da agricultura, só falam em ir embora, e os proprietários dizem que não sabem mais como administrar as contas.”

Conforme Vanderlei, a maior reclamação é com a realidade em que o preço dos insumos e o custo de vida só sobem, disparam, enquanto, ao contrário, a média de venda do tabaco é cada vez mais baixa. “Dizem que estão classificando muito mal, que não querem produto de baixa qualidade, e por aí vai. Eu já produzi tabaco e sei que é impossível alguém só produzir tabaco bom, sempre vai ter parcela de qualidade inferior. E agora? O que fazer com esse produto?” Vanderlei questiona em especial o fato de o dólar, em alta, estar beneficiando diretamente as exportações e, no entanto, a média de preços ao produtor estar recuando ao invés de melhorar.

“SEM O TABACO, FICA INVIÁVEL”

De acordo com o prefeito de Passa Sete, seria praticamente impossível para o município alterar seu modelo de produção, hoje apoiado no tabaco, uma vez que todas as propriedades dependem dele. “Não há alternativa. Para nós, sem o tabaco fica inviável administrar”, comenta, com o conhecimento de quem foi o primeiro administrador local, em sequência à emancipação, em 1995, e de quem cumpre sua terceira gestão. “Depois do tabaco, a segunda fonte de renda por aqui é a soja, mas ela jamais poderia ser praticada em tantas lavouras tão pequenas”.

Vanderlei comenta que a Prefeitura viabilizou, em parceria, a implantação de três câmaras frias na cidade, com capacidade para armazenar 300 mil quilos de hortigranjeiros ou de outros produtos, e que sempre há bastante espaço ocioso. “É muito difícil viabilizar mercado para qualquer outro produto na região”, salienta. “Por isso, é fácil compreender por que o pessoal segue apostando tanto no tabaco”.

O momento delicado de comercialização da safra, conforme o prefeito, está servindo para que a população rural compreenda a necessidade de voltar a dedicar atenção a produtos de subsistência. “Nos últimos anos, os produtores diziam que preferiam plantar mil pés de tabaco a mais e adquirir alimentos no mercado”, lembra. “Agora, estão vendo que isso é errado, e que não é mais viável. Está na hora de voltar a plantar na propriedade os alimentos básicos. Tem de produzir de tudo. Só assim dá para viver bem”. Em seu entender, isso inclusive tende a favorecer os negócios com tabaco. “Se diminuir um pouco a produção, aí sim ele certamente vai valer mais. E aí também dá para cuidar melhor e fazer qualidade”, arremata.

Romar Beling
romar@editoragazeta.com.br
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