O nebuloso cenário da COP 7 na Índia

Por Romar Beling/enviado especial (romar@editoragazeta.com.br)

Nova Délhi/ Índia – Parece uma grande ironia que a Organização Mundial da Saúde (OMS) abra hoje a 7ª Conferência das Partes (COP 7) da Convenção-Quadro para o Controle do Tabaco (CQCT) em Greater Noida, ao lado de Nova Délhi, na Índia, justamente quando a região registra seus piores níveis de poluição. Os participantes da COP são recebidos por uma cortina de neblina que simplesmente deixa todos os espaços urbanos da capital indiana com cenário de filme noir, e isso dia e noite. A programação da COP 7 estará concentrada no India Expo Center & Mart, um mega centro de convenções que desde às 14 horas desse domingo (horário local) recebeu participantes do mundo todo em busca de suas credenciais.

A COP 7 reúne delegações oficiais dos países que ratificaram a Convenção-Quadro e admite ainda a participação de representantes de organizações não-governamentais (ONGs) e pessoas que se identificam com o tema. O Brasil, a exemplo de edições anteriores, será representado por sua comitiva oficial, formada por delegados de diversos ministérios, sob a chefia do Ministério das Relações Exteriores. Da região de Santa Cruz do Sul e de toda a cadeia produtiva do tabaco deslocaram-se para Nova Délhi lideranças das áreas de produção e da indústria do tabaco. A expectativa deles é acompanhar o mais de perto possível o desenrolar das discussões e o avanço nas tratativas dos diversos temas em pauta.

No entanto, na tarde desse domingo, os representantes da Associação dos Fumicultores do Brasil (Afubra) e da Federação dos Trabalhadores na Agricultura de Santa Catarina (Fetaesc), por exemplo, não conseguiram credenciamento como público, sendo, portanto, barrados no acesso a qualquer atividade no Centro de Convenções. A tendência é de que outras pessoas de alguma forma vinculadas com a cadeia do tabaco igualmente sejam impossibilitadas de ter acesso inclusive à plenária de abertura, na manha de hoje.

 Neblina e poluição tumultuam a cidade

O enorme público que se deslocou à Índia, oriundo de todas as partes do planeta, foi recebido no fim de semana em uma cidade transtornada. Se a condição de capital do segundo país mais populoso do planeta por si só já garantia à capital indiana um status de tumulto e propalada dificuldade no trânsito, eis que justamente no período do evento essa região vive um dos piores níveis de poluição.

Já no aeroporto os visitantes são recebidos por uma camada de neblina formada por gases tóxicos, que cobre tudo e deixa a visibilidade muito limitada. Os milhares de carros, autorriquixas (triciclos motorizados onipresentes em todas as vias), motos, carroças e outros meios de locomoção circulam como se fosse em uma nuvem de fumaça. Essa cortina de vapores decorre de uma combinação de fumaça advinda de queimadas feitas em festivais populares, dos gases dos milhões de veículos que circulam na grande Nova Délhi e da neblina em si, criando uma camada que sufoca os habitantes.

Em todos os jornais locais, as manchetes referem os problemas de saúde decorrentes desse clima, com pessoas necessitando de cuidados médicos em virtude de problemas nos olhos, na pele e, principalmente, respiratórios. As orientações são para que em especial os estrangeiros adotem o uso de máscaras, e desta forma, inclusive muitos visitantes são expostos nas páginas dos jornais. E a previsão é que a neblina tóxica que se infiltra em todos os ambientes, fora e dentro dos prédios, permaneça sobre a cidade durante toda a semana.

Assim, não deixa de parecer incongruente que a OMS tenha escolhido Nova Délhi como sede da COP 7 para discutir o tabaco como problema de saúde e que os participantes do evento fiquem expostos a um dos maiores agravos à saúde de que se tem notícia nos últimos anos. Diante do caos e da ameaça que cada pessoa sente nas ruas da capital e das imediações, é inusitado que delegações oficiais e pessoas de centenas de nações estejam sendo submetidas a uma grave ameaça à sua própria integridade física.

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21,7 MILHÕES
Além da neblina tóxica que cobre a cidade, é impossível não constatar os dilemas sociais de uma capital que contabiliza, em sua área metropolitana, cerca de 21,7 milhões de habitantes, e a grande maioria dela em situação de extrema pobreza. As deficiências em saneamento, segurança, mobilidade e habitação escancaram-se aos olhos do visitante, e assim a OMS de certo modo só reafirma ao mundo que há problemas imensos por resolver em qualidade de vida, e que o cigarro (ou o tabaco) pode ser um dos menores.

Índia é o segundo maior produtor de tabaco

A COP 7 acontece no país que é o segundo maior produtor mundial de tabaco. Com cerca de 820 mil toneladas, a Índia está à frente do Brasil, o terceiro, e perde apenas para a China, maior produtora. No entanto, o Brasil é desde 1993 o maior exportador mundial, tendo na reconhecida qualidade de seu tabaco Virginia o grande conceito perante mais de 100 países que adquirem essas folhas. Enquanto no Brasil cerca de 85% do produto é Virginia, usado no blend para dar sabor e aroma aos cigarros, a Índia produz cerca de 260 mil toneladas de sua colheita deste tipo de folha. E mesmo assim absorve praticamente todo esse volume em seu mercado interno. O restante da produção indiana é de tabaco de baixa qualidade, que resulta nos cigarros comuns, muito rústicos, chamados de “bidi”, e que são largamente comercializados em espaços populares, com pouco tabaco e em geral enrolados de forma rudimentar com folhas de algumas espécies de árvores. Mesmo que a Índia absorva quase a totalidade de sua produção das folhas, exporta pequenas quantidades para alguns clientes.

E os produtores de tabaco da Índia também não estão muito satisfeitos com a realização da COP 7 em seu país. A federação que reúne todas as entidades vinculadas a essa cultura no país inclusive programa para a manhã desta segunda-feira (horário local) um forte movimento de protesto. Calcula-se que mais de 600 agricultores estarão diante do centro de convenções onde ocorre o evento da OMS. Se isso se confirmar, é muito provável que haja algum confronto, porque desde a tarde desse domingo centenas de soldados, que chegavam em ônibus, já se espalhavam pela área externa do prédio. Há indicativos de que esses produtores estariam determinados a não admitir a entrada dos participantes, como forma de exigir que representantes da cadeia produtiva também sejam admitidos nas discussões e tenham acesso ao conteúdo que, afinal, versa sobre a sua atividade de sustentação familiar. Ou seja, se a OMS busca reunir em Greater Noida delegações para discutir o futuro do tabaco sob o viés da saúde, talvez os participantes, na abertura do evento, tenham de se haver com um protesto veemente de produtores indianos dessa cultura.

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