‘Liberar cigarro eletrônico ajudará os fumantes’, diz especialista britânica

Por: Pedro Garcia, Jornal Gazeta do Sul

Rio de Janeiro/RS – Enquanto no Brasil a discussão sobre a liberação da comercialização de cigarros eletrônicos e dispositivos de tabaco aquecido ainda engatinha, em outros países os novos produtos fumígenos não apenas foram regulamentados, mas são reconhecidos como eficientes ferramentas de combate ao tabagismo. É o que afirma a pesquisadora Louise Ross, que atua no Stop Smoking Service, na cidade de Leicester, no Reino Unido.

O Stop Smoking Service é um órgão público existente em várias cidades inglesas e tem o objetivo de ajudar pessoas a pararem de fumar. Há cinco anos, esse tratamento inclui, além de suporte comportamental e eventualmente algum medicamento, também os chamados dispositivos eletrônicos para fumar (DEFs), que no Brasil são proibidos por uma resolução da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) desde 2009.

Em entrevista exclusiva à Gazeta do Sul nessa terça-feira, 6, no Rio de Janeiro, Louise afirmou que as experiências com os produtos eletrônicos com fumantes vêm sendo extremamente positivas. Apesar de todas as desconfianças que cercam esses produtos, Louise não hesita em afirmar que eles oferecem um consumo de nicotina muito mais seguro em relação aos cigarros tradicionais, na medida em que dispensam a combustão. Ela também discorda das afirmações de que os eletrônicos podem servir como iniciação ao tabagismo, inclusive para o público jovem.

Nesta quinta-feira, 8, a Anvisa realiza em Brasília a primeira audiência pública para discutir a possível liberação desses produtos no Brasil. Trata-se de uma das etapas do processo regulatório, posterior à elaboração de diversos estudos técnicos a respeito do assunto. Devem participar tanto organizações antitabagistas quanto empresas e entidades ligadas ao setor de tabaco nas discussões, que se estenderão por todo o dia. A Gazeta Grupo de Comunicações estará presente.

*O jornalista viajou ao Rio de Janeiro a convite da empresa Souza Cruz.

Organizadores impedem a cobertura

Louise Ross foi uma das painelistas do workshop “Redução de danos do tabaco no Brasil – o papel dos cigarros eletrônicos”, promovido na manhã dessa terça pelo Centro de Apoio à Pesquisa no Complexo de Saúde (Capcs) da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj). Embora a Gazeta do Sul tenha solicitado inscrição para fazer a cobertura in loco, dada a relevância do tema para o futuro da cadeia produtiva do tabaco, pouco antes da abertura, uma das organizadoras informou à equipe que se tratava de um evento voltado exclusivamente a profissionais da área médica e que não havia interesse na divulgação do conteúdo dos painéis. A presença do jornalista foi autorizada apenas mediante a assinatura de um “termo de confidencialidade”. Foi permitido, porém, que os painelistas concedessem entrevista ao final.

Gazeta – Como funciona o Stop Smoking Service?
Louise – Nós atendemos pessoas que querem parar de fumar. Por até 12 semanas, oferecemos a elas uma combinação de suporte comportamental e, às vezes, medicamentos e algum produto para ajudá-las a parar de fumar, para tornar isso mais fácil para elas. É um serviço público, administrado pelos governos locais.

Gazeta – Desde quando os produtos eletrônicos de tabaco são utilizados nesse serviço?
Louise – Usamos os cigarros eletrônicos desde 2014. Inicialmente, nós os utilizamos em uma amostra muito pequena, para ver se funcionavam, e ficamos impressionados ao ver quantas pessoas conseguiram parar de fumar com esses produtos. Elas gostaram muito e diziam: “Agora eu posso nunca mais fumar um cigarro de novo”.

Gazeta – É possível afirmar, então, que esses produtos são mais seguros do que os cigarros tradicionais?
Louise – Com os cigarros tradicionais, uma em cada duas pessoas vai morrer de doenças associadas ao tabagismo – respiratórias, cardíacas ou câncer. Com cigarros eletrônicos, não há fumaça, então não há os componentes tóxicos gerados pela combustão, que são os responsáveis pela morte das pessoas. Estamos dando às pessoas a nicotina, mas o que necessita ser entendido é que a nicotina não é um problema, é a substância química menos prejudicial à saúde que existe em um cigarro. O que mata as pessoas é a fumaça. Por isso, o cigarro eletrônico é uma forma muito mais segura de consumir nicotina.

Gazeta – Algumas pessoas dizem que os produtos eletrônicos podem ser a entrada para o cigarro tradicional. O que as pesquisas do Reino Unido indicam nesse sentido?
Louise – As pesquisas que temos no Reino Unido não trazem nenhuma evidência disso. Mostram que pode haver um uso experimental, ou seja, não fumantes podem ser atraídos, mas eles não vão avançar para o cigarro tradicional. Sabemos também que as pessoas experimentam muitas coisas, mas isso não significa que vão consumi-las regularmente. Na verdade, a maior parte das pessoas que consomem cigarros eletrônicos era fumante no passado. Às vezes, utilizam cigarro tradicional e cigarros eletrônicos juntos, e é isso que nós queremos combater. Queremos oferecer a informação correta para que interrompam o consumo de cigarros com fumaça e passem a consumir o cigarro eletrônico.

Gazeta – Também existe a preocupação de que esses novos produtos seriam muito atrativos para a população mais jovem. A senhora concorda com isso?
Louise – Não. É claro que existe o uso experimental, mas é preciso distinguir entre consumir uma vez e o consumo regular. Todas as pesquisas realizadas até o momento no Reino Unido apontam que não há uso regular desses produtos entre pessoas que nunca fumaram. Elas podem até experimentar, mas não vão usar de novo, basicamente porque elas têm maneiras melhores de gastar o seu dinheiro. Eu, como não fumante, experimentei um cigarro eletrônico e não é agradável. Para os fumantes, sim, eles oferecem algo mais forte. Portanto, eu realmente não acho que eles possam ser uma porta de entrada. O que as nossas pesquisas indicam é que , quando o uso de cigarros eletrônicos aumenta, o uso de cigarros com combustão cai, em todas as idades.

Gazeta – Que tipo de regulação esses produtos precisam ter para que se consigam esses efeitos que a senhora está descrevendo?
Louise – Isso é muito importante. No Reino Unido, todos os produtos que são comercializados passam por testes e fiscalizações das agências reguladoras de saúde. Isso é a garantia de que não estão sendo colocados no mercado produtos que ponham em risco as pessoas. Então, uma boa regulação é muito importante para que as pessoas possam estar seguras ao comprar.

Gazeta – Sua opinião, portanto, é de que o Brasil deveria liberar a comercialização desses produtos, com regulação?
Louise – Acredito que sim. Penso que isso vai ajudar um grande número de fumantes. Sei que o Brasil vem se saindo muito bem na redução do tabagismo, mas ainda há muitos fumantes que precisam de uma porta de saída. E penso que esses produtos vão ser uma nova oportunidade para acelerar o caminho de um país completamente livre de fumaça.

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