Futuro do tabaco pauta as discussões na Rússia

Moscou, Rússia – O que a Rússia tem a ver com tabaco? Excluindo o fato de se tratar de um país importador dessa matéria-prima, o próprio clima da nação, de inverno prolongado e rigoroso, não admitiria, por exemplo, o cultivo da planta. No entanto, é por Moscou, a capital russa, que passa o caminho para a possível realidade das áreas de produção, processamento e comercialização dessas folhas e de seus subprodutos nos próximos anos. A partir de hoje, e com continuidade até a sexta-feira, ocorre na cidade a COP 6, a Conferência das Partes da Convenção-Quadro para Controle do Tabaco.

O evento é organizado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e aborda, com a participação de delegações da grande maioria dos 177 países que ratificaram sua adesão a esse acordo internacional, temas-chave que sugerem redução ou interrupção no cultivo e no comércio. A abertura, nesta segunda, tem anunciada a presença de ninguém menos que o presidente da Rússia, Vladimir Putin, o que já dá indicativos do grau de envolvimento político. As reuniões e os debates se estendem ao longo do dia todo.

Para a região envolvida com a atividade do tabaco no Sul do Brasil, e especialmente para o Vale do Rio Pardo, polo mundial da indústria desse segmento, as discussões e as decisões a serem tomadas em Moscou podem sinalizar rumos e decorrências a curto e médio prazos. Isso envolve desde a própria continuidade da produção, mas especialmente a comercialização, com o risco, sempre iminente, de restrições econômicas ou alfandegárias de toda ordem.

A atenção do setor recai sobre a presença e as manifestações dos representantes do governo brasileiro no âmbito da conferência. Estão em Moscou técnicos dos ministérios da Saúde, do Trabalho, do Desenvolvimento Agrário e da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. A salientar há o fato de uma brasileira, Vera Luiza da Costa e Silva, ocupar, nesse momento, a presidência da Secretaria Geral da Convenção-Quadro.

O domingo era de últimos preparativos e de busca de credenciais no sofisticado e amplo centro de convenções. Os corredores proporcionavam uma mescla de línguas e de etnias de todos os continentes. Lideranças setoriais e autoridades da região de Santa Cruz do Sul deslocaram-se a Moscou e estão desde sábado instalados em hotéis nas imediações do Crowne Plaza, na área central da capital russa, para acompanhar a movimentação. Representantes da Associação dos Fumicultores do Brasil (Afubra), do Sindicato Interestadual da Indústria do Tabaco (Sinditabaco), da Associação dos Municípios Produtores de Tabaco (Amprotabaco), da Federação da Agricultura (Farsul) e da Federação dos Trabalhadores na Agricultura (Fetag) vieram à Rússia.

A eles agregam-se dirigentes vinculados a empresas do setor, assim como políticos, caso de prefeitos e deputados estaduais. Comitiva da Associação Internacional dos Produtores de Tabaco (ITGA), chefiada por Antonio Abrunhosa, igualmente se faz presente. No entanto, a exemplo de edições anteriores, desde o princípio o grupo constatou que não obteria credenciamento para assistir aos debates, especialmente os mais diretamente relacionados com a cadeia de produção e processamento.

SINAL DE ESPERANÇA

Nos bastidores, nesse domingo à tarde, antes mesmo do início das atividades, circulava o boato de que a OMS talvez sinalizaria, a partir desta edição, extiguir a reunião do seu Grupo de Trabalho nos moldes de uma Conferência das Partes para concentrar ações pontuais e específicas nos principais países de interesse (e o Brasil, maior exportador mundial da folha, certamente seria um alvo preferencial). Outro indicativo era de que os temas mais polêmicos (os que dizem respeito a possíveis limitações ou restrições de cultivo ou de comércio, sob diversas formas, assim como os que preveem acirramento nas questões trabalhistas ou ambientais), ficariam para ser debatidos mais para a reta final da COP 6. Se assim for, algumas notícias poderão advir como uma surpresa (e nem se sabe se positiva ou negativa) no encerramento, em uma cidade na qual já se faz sentir, sob um céu cinza e melancólico, o primeiro frio outonal da Rússia.

E, a levar-se em conta o fato de a Rússia não ter produção de tabaco, está diretamente empenhada no consumo. Não deixava de ser curioso verificar, em grande número, em pleno ambiente de realização da COP 6, nesse domingo, seguranças e trabalhadores russos afastando-se poucos metros das suas funções para…acender um cigarro! As delegações de todos os países aqui representados podem até ter em mente ideias arrojadas para o futuro, mas o presente, bem ali, ao lado, manda seu tranquilo e enigmático sinal de fumaça. Coisas de Moscou.

Romar Beling/enviado especial
romar@editoragazeta.com.br

Share

Adicione um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *