Especial: Sob o signo dos peixes

Santa Cruz do Sul/RS – Para um amplo grupo de agricultores, em todo o Sul do Brasil, não é o coelhinho que traz o presente mais aguardado na Páscoa: são os peixes. E essa agradável surpresa para o bolso – e, claro, para a mesa – também contempla inúmeros produtores de tabaco. Uma vez que o setor da piscicultura ainda é bastante informal, e não conta com uma entidade que congregue todos os envolvidos, dos que adotam perfil mais profissional aos amadores, as estatísticas são incertas. Mas é inegável que a criação de peixes, de diferentes espécies, constitui uma tradicional e promissora alternativa de renda nas pequenas propriedades rurais.

Em geral de baixo custo e com pouca exigência de mão de obra, restrita quase sempre aos familiares, a piscicultura só depende mesmo das condições naturais da propriedade, isto é, que tenha disponibilidade de água. O zootecnista Paulo Werner, 54 anos, natural de Santa Cruz do Sul (RS) e que atua junto à Secretaria Municipal de Agricultura, diz que no comparativo com outras atividades, os peixes oferecem muita tranquilidade, em termos de ocupação regular. Há 27 anos, ou seja, por metade de sua vida, acompanha diretamente esse segmento e diz ter plena noção de quanto peixes agregam valor nas propriedades, numa formidável relação custo-benefício.

Ele próprio chegou a se dedicar à criação, em sua chácara, e só a interrompeu em virtude da incompatibilidade com suas outras tarefas profissionais. Mas sabe que é com os peixes que quer se ocupar de novo dentro de alguns anos. Não apenas por ser especialista no tema ou por ser criador, mas por vislumbrar as chances de negócios que oferecia na região, foi entusiasta da criação da Associação Santa-cruzense de Produtores de Peixe (ASPP), em 1994, que hoje congrega 25 famílias do município.

Em parte por conta da boa organização, mas também pela vocação e pela especialização dos criadores, Santa Cruz do Sul tornou-se referência na produção de carpas. “Talvez a gente só perca mesmo, hoje, para a região de Roca Sales, onde a atividade está muito difundida”, observa. A entidade atualmente é presidida por Gilberto Müller, que tem seus criatórios em Linha Andrade Neves, a localidade mais fortemente identificada com a piscicultura em Santa Cruz.

Os associados, em sua grande maioria, eram, na origem, produtores de tabaco. Muitos ainda permanecem com as duas atividades, mas vários foram reduzindo, pouco a pouco, as lavouras de tabaco para acabar por se dedicar aos peixes ou, eventualmente, também à pecuária leiteira. “Os que deixaram de plantar se profissionalizaram, e os demais ainda conciliam os cuidados nas plantações e nos açudes”, diz Werner.

POUCO TRABALHO, BOM RETORNO

Paulo Werner

Paulo Werner

O interessante no caso do Vale do Rio Pardo é que a maioria das famílias que se dedica à piscicultura tem identificação com a produção de tabaco. Uma vez que este ocupa pouca área, o que favorece a diversificação, os peixes são opção natural, pela baixa exigência de mão de obra e como forma de explorar recursos naturais. “O custo mais acentuado talvez seja mesmo a construção dos açudes ou dos tanques”, refere Werner. “Depois, para os que criam a carpa Capim, ela requer alimentação com pastagens. E tem a compra dos alevinos, após cada despesca, e as eventuais manutenções de taipas, ou margens. Mas são todas tarefas muito menos exigentes do que as de qualquer outra atividade agrícola”.

Os produtores da ASPP estruturam-se para abastecer, na véspera da Semana Santa, a Feira do Peixe, junto a feiras rurais no perímetro urbano. Em geral, metade dos associados faz a despesca em cada ano. Foi o que aconteceu em 2015, quando 12 retiraram a produção de seus açudes e os comercializaram. A projeção é de que, juntos, tenham disponibilizado entre 15 e 16 toneladas. A carpa Capim eviscerada é vendida a R$ 12,00 pelo quilo; a Húngara, a R$ 10,00; Prateada e Cabeça Grande saem por R$ 9,50. Há um produtor de tilápia, Paulo Reis, de Pinheiral, que ofertou cerca de mil quilos em 2015. Das carpas, a Capim é a mais produzida, em torno de 70% do total. Conforme Werner, o restante do grupo, formado pelos demais associados, prepara-se, então, para abastecer a demanda do ano que vem.

HISTÓRIAS DE PESCADORES

Além disso, há um grande número de produtores de peixe no interior de Santa Cruz do Sul que não está integrado à associação. Eles produzem de forma menos profissional, em parte para autoconsumo, com venda do excedente à beira do açude, entre vizinhos e conhecidos. Informações dão conta de que o quilo de carpa, viva, ou não eviscerada, nesses casos é negociado por R$ 8,50. “Por aí dá para ver que o peixe é uma excelente fonte de renda alternativa”, reforça Werner.

Por seus cálculos, acredita que no meio rural é comercializada a mesma quantia de peixes que é ofertada na feira, na cidade. “Assim, chega-se a umas 30 ou 35 toneladas retiradas dos açudes e vendidas na véspera da Páscoa”, aponta. Os integrantes da ASPP organizam-se basicamente para atender à demanda na Páscoa. No entanto, ao longo do ano, entre 250 e 300 quilos, em média, costumam ser negociados a cada semana no funcionamento da Feira Rural. “Não conseguimos nos abastecer por aqui para suprir esse mercado. Esse produto tem vindo de Passo do Sobrado e de outros municípios”, informa Werner. Eis, aí, o sinal de que há espaço para fazer dinheiro com a criação de peixes.

E explica também por que a cada ano, no calor da despesca ou da comercialização próximo da Páscoa, dezenas de agricultores se animam e planejam construir ou recuperar açudes, de olho nos ganhos econômicos possíveis. No entanto, pela natureza de suas explorações agrícolas, quase sempre acabam de novo se acomodando nos meses seguintes, e deixam de aproveitar melhor os recursos da propriedade. A mesma realidade de certa forma é compartilhada com outras localidades, inclusive no Centro-Serra, nos arredores de Sobradinho, ou na área baixa do Vale do Jacuí, em Agudo, onde a disponibilidade de água poderia ser sinônimo de renda extra em relação ao tabaco.

Mas a verdade é que, como o agronegócio ensina, o coelhinho da Páscoa não vem de graça e nem por brincadeira. Ele gosta muito de retribuir por esforço, paciência, empenho e persistência, coisa que um bom pescador sabe muito bem.

Santa Cruz é referência na produção de carpas (foto: Bruno Pedry/Gazeta do Sul)

Santa Cruz é referência na produção de carpas (foto: Bruno Pedry/Gazeta do Sul)

Romar Beling
romar@editoragazeta.com.br
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