ESPECIAL: REFLORESTAMENTO É A BOLA DA VEZ

Santa Cruz do Sul/RS – O reflorestamento para fins de produção de madeira ou de suprimento energético (no caso do aproveitamento da lenha) tem constituído uma excelente alternativa de renda nas pequenas propriedades rurais. Na região produtora de tabaco, o plantio de espécies florestais, com destaque para o eucalipto, tem se tornado ainda mais estratégico.

Como a atividade necessita de lenha para realizar a cura das folhas nas estufas, assegurar o abastecimento é uma preocupação constante. “Hoje praticamente não dá para pensar numa pequena propriedade sustentável que não ocupe ao menos parte de sua área com florestas plantadas”, sinaliza o engenheiro florestal Jorge Antonio Farias, professor nos cursos de Graduação e de Pós-Graduação do Departamento de Ciências Florestais na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).

Farias, caxiense de 52 anos, é profundo conhecedor da realidade de produção do tabaco. Por 25 anos atuou junto ao Departamento AgroFlorestal da Associação dos Fumicultores do Brasil (Afubra), dedicando-se, nesse período, a estimular e a fomentar o reflorestamento em propriedades produtoras de tabaco. Em ações vinculadas ao Programa Verde é Vida, da própria Afubra, e em outros projetos da entidade, como os plantios demonstrativos feitos em diversas regiões dos três estados do Sul do Brasil, Farias pôde testemunhar de perto a grande demanda de produtos florestais, particularmente da lenha. Logo constatou que a lacuna existente, diante da forte procura, guardava uma oportunidade valiosa de agregação de renda para as famílias.

Sua experiência prática no campo e a continuidade na formação o levaram a ingressar como docente na UFSM, em 2011. Ali, segue desenvolvendo estudos e pesquisas relacionadas ao aproveitamento e à exploração florestal nas pequenas propriedades. “Hoje defendemos, inclusive, uma maior interação dos produtores com a própria floresta nativa de sua propriedade”, frisa. “É fundamental que, gradativamente, as famílias voltem a interagir com o remanescente da Mata Atlântica, até como forma vital de preservação dela. E, em paralelo, que se siga fazendo reflorestamento com espécies energéticas para garantir o abastecimento.”

Farias

Jorge Farias é professor na UFSM (foto: divulgação)

OFERTA MUITO APERTADA

Atualmente, a mata reflorestada abrange 156.260 hectares nas 84.710 propriedades produtoras de tabaco. São números referentes à safra 2013/14, levantados pela Afubra, em pesquisa detalhada, e revelam queda muito acentuada, por exemplo, em relação a duas safras atrás, quando a área era de 172.490 hectares. Isso significa que a demanda se intensificou, e levou ao corte de cerca de 16 mil hectares em apenas duas safras, ou ainda que o plantio não ocorreu em ritmo similar ao da procura.

A lenha é em grande parte canalizada para alimentar unidades de cura do próprio tabaco, mas tem sido nítido que, em virtude do escasseamento, atividades de fora da região do tabaco têm passado a concorrer na aquisição do eucalipto produzido nas pequenas propriedades. Entre as safras 2011/12 e 2012/13, a reserva caiu de 172,4 mil para 160 mil hectares. A média de árvores plantadas por ano ficou em 10,328 milhões na safra 2013/14. São cerca de 2,8 milhões a menos do que haviam sido plantadas duas safras antes, sinalizando para o risco de uma oferta mais restrita dentro de quatro ou cinco anos, quando as árvores estarão em ponto de corte.

Em outras palavras: o recuo no tamanho da área de reflorestamento chegou a cerca de 10% do total reflorestado em apenas duas temporadas, demonstrando que a demanda de lenha ou de madeira para outras finalidades está muito mais acentuada do que o plantio ou a reposição. Em paralelo, como era de esperar, a grande procura faz subir o preço, de maneira que, de um lado, haja forte pressão sobre custo de produção do tabaco, e, de outro, produtores de eucalipto tenham diante de si um momento muito promissor em termos de rentabilidade. Em média, a lenha costuma representar cerca de 7% a 7,2% do custo de produção do tabaco, conforme levantado pela Afubra e pelo Sindicato da Interestadual da Indústria do Tabaco (SindiTabaco).

Reflorestamento

Área reflorestada chega a 156 mil hectares na região fumageira (foto: Inor Assmann)

PEQUENA ÁREA, GRANDE LUCRO

Na área das propriedades produtoras de tabaco, cuja média é de 15,9 hectares (dados da safra 2013/14), a cobertura florestal, nativa e reflorestada, corresponde a 27,4%, índice bastante alto para uma região de minifúndio. Isso representa 368.450 hectares dos 1,343 milhão de hectares totais das propriedades produtoras de tabaco, em mãos de 123.960 famílias. O número de árvores reflorestadas na safra 2013/14 chegava a 364 milhões.

No entanto, a permanecer o atual ritmo de demanda (que, na verdade, não se encontra estável, e sim crescente, como se viu), a necessidade de fornecimento de lenha e de madeira de reflorestamento só tende a aumentar. Dos 256 municípios produtores consultados na pesquisa da Afubra, 137 já apresentavam déficit de lenha (a procura era maior do que a oferta) e 119 ainda tinham superávit.

Mas, naturalmente, a pressão sobre as florestas plantadas existentes tem sido cada vez mais intensa, uma vez que as pesadas multas aplicadas por órgãos florestais inibiram definitivamente qualquer plano de tocar em matas nativas. Por suas inúmeras vantagens para o pequeno agricultor (baixo custo de implantação, pouca exigência de mão de obra, baixo pacote tecnológico e mínimo risco de perdas ou prejuízos), talvez o reflorestamento com eucalipto seja a melhor e a mais promissora alternativa de diversificação dos dias atuais. É uma espécie de poupança, e bem visível diante dos olhos, com retorno garantido.

Romar Beling
romar@editoragazeta.com.br
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