ESPECIAL: Ninguém enrola o fumo em corda

Santa Cruz do Sul/RS – Fumo em corda e palheiro são coisas de matuto e de caipira, certo? Certo. Mas não só. O imaginário popular associou os dois artigos e o hábito de preparar o próprio tabaco, picado com canivete e desfiado na palma da mão, a pessoas humildes. No entanto, o seu consumo, que permanece em muitos espaços sociais, migrou de forma surpreendente para ambientes e pessoas com maior poder aquisitivo. Isso explica em grande parte por que, apesar de todos os indicativos contrários no comércio em geral, a atividade de produção de fumo em corda não só permanece como segue bastante rentável.

Que o diga a região de Sobradinho, no Centro-Serra do Rio Grande do Sul, onde o cultivo desse tipo de tabaco, conhecido como “Amarelinho”, continua presente na paisagem. Mais do que isso: garante renda certa a cada nova safra para cerca de 50 produtores, viabiliza empresas, que distribuem o fumo em corda e em outras elaborações (fumo desfiado ou charutos, por exemplo); e proporciona retorno econômico, isso tudo em pleno século XXI.

“Claro que os tempos são outros”, avalia o produtor e empresário Neimar Redin, proprietário de uma dessas empresas, que responde pela distribuição de marcas de fumo em corda e outros produtos em todo o território nacional. “Mas, por enquanto, o fumo em corda segue muito atuante”, completa. Filho de fabricante de fumo em corda, desde pequeno viu o pai, seu Olinto, fazer dinheiro com essa atividade. Estabelecido na chamada Linha Quinca, hoje praticamente Bairro Quinca, a dois quilômetros do perímetro urbano de Sobradinho, em direção a Segredo, Neimar, 54 anos, lembra que de oito a 10 municípios, todos emancipados justamente de Sobradinho, mantêm a tradição do plantio da variedade.

E justifica: o clima e o solo da região são perfeitos, como nenhum outro local no Estado, para o Amarelinho. “Ele quer terra alta. Não se desenvolve bem em região baixa, onde a qualidade fica ruim. E não quer terra vermelha. Aqui, se adaptou muito bem”, frisa. Ao clima acrescenta-se a arraigada cultura regional de consumir o tabaco em rolo. Segundo ele, afora áreas como o Nordeste e outros recantos do País, que cultivam diferentes variedades, talvez só mesmo os arredores de Concórdia, em Santa Catarina, propiciariam boa qualidade. “Ali há algumas famílias, que por sinal saíram daqui da região, produzindo pequena quantia”, cita.

Neimar Redin: 2014 foi positivo para produtores de fumo em corda

Neimar Redin: 2014 foi positivo para produtores de fumo em corda

UMA SAFRA EXCEPCIONAL

A temporada de 2014, por sinal, foi muito animadora para os produtores de fumo em corda da região de Sobradinho. O ciclo da variedade é em tudo similar ao do Virgínia ou do Burley, as duas mais largamente cultivadas no Sul do Brasil. O plantio ocorre entre setembro e outubro, e a safra se desenvolve no verão, com a proximidade do Natal. Mas em tempos de colheita o Amarelinho implica em trabalho todo dia. “A colheita é diária, segunda a sexta, apanhando as folhas que amadurecem”, explica. “Em simultâneo, inclusive nos finais de semana, é preciso fazer a cura da corda, virando as cambotas e tudo mais”.

Na região de Sobradinho, conforme Neimar Redin, cerca de 50 famílias dedicam-se ao cultivo de Amarelinho, com média de dois hectares, o que significa de 15 mil a 20 mil pés, em área total estimada em 100 hectares. Cada 10 mil pés proporcionam em torno de mil quilos de corda, de modo que a produção regional é calculada em cerca de 50 mil quilos. A safra de 2014 acabou sendo limitada em volume: por conta das constantes chuvas, o tabaco não pesou muito, e Neimar prevê que a quebra chegou a 30%. “No entanto, a qualidade foi excepcional”. Com menor oferta e bom tabaco, o produtor recebeu, em média, R$ 20,00 por quilo, o que dá ideia de excelente remuneração.

Isso não significa, porém, que há espaço para incremento. O mercado encontra-se estabilizado. Redin, ele próprio, já não cultiva mais o Amarelinho. Mantém parceria com 20 famílias: adquire a produção integral delas, entregue semi-pronta. Por mais 60 dias, completa a cura dessas cordas. “Quando se inicia a safra, converso com esses produtores, e me comprometo a adquirir o fumo”, cita. “Mas se mais 10 aparecessem ou quisessem plantar, com esses já não poderia me comprometer”, observa.

PARA TODO O BRASIL

O fumo em corda local é distribuído, por representantes, em todas as regiões do Brasil. “Hoje, é hábito que acompanha gente do meio tradicionalista, dos rodeios, das pescarias, que preserva uma tradição”, comenta. “Não dá para saber por quanto tempo isso vai ter continuidade”. Outras empresas da vizinhança, como a Tabacos Trevisan, igualmente se dedicam ao mesmo ramo e comercializam fumo em corda, além de alguns poucos produtores que persistem, mais por tradição, no fabrico de pequenas porções, muitas vezes para consumo próprio.

Conforme Neimar, em muitas ocasiões sua propriedade (atualmente mais voltada ao cultivo de vinhedos e à elaboração de vinhos) recebe visitas ou excursões interessadas em conhecer esse inusitado jeito de preparar fumo. É a história que permanece viva, persiste e, obviamente, gera renda, contra todos os prognósticos daqueles que são chegados a, digamos, subestimar os matutos.

Romar Beling
romar@editoragazeta.com.br
Share

Adicione um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *