ESPECIAL: A RETOMADA DA PRODUÇÃO DE TABACO NA BAHIA

Santa Cruz do Sul/RS – O tabaco segue imbatível como fonte de renda nas pequenas propriedades rurais da região do Recôncavo, na Bahia. Não por acaso, o setor projeta um pequeno incremento, calculado em 5%, na área de cultivo e na produção para a safra de 2015, que começa a ser preparada neste mês. Em entrevista por telefone ao Portal do Tabaco, o presidente do Sindicato da Indústria do Tabaco do Estado da Bahia (Sinditabaco-BA), Odacir Tonelli Strada, afirmou que até agora todas as campanhas para diversificação ou substituição de lavouras no Estado esbarraram no fato de que nada gera mais receita em tão pequena área de produção quanto as folhas de tabaco escuro, comercializadas junto às empresas fabricantes de charutos.

Nas últimas safras, em torno de 15 mil produtores estavam envolvidos com a atividade, a maior parte deles vinculados a uma das empresas de processamento do tabaco, das quais obtém a antecipação de recursos, através de financiamentos, mas parcela também atuando de forma independente, custeando sozinhos as despesas de lavoura. Estão distribuídos por 22 municípios nas imediações de Alagoinhas, São Gonçalo dos Campos e São Félix. O volume de produção de 2014 não está completamente fechado, uma vez que algumas empresas seguem fazendo o beneficiamento das folhas. Mas Strada tem consciência de que a seca prejudicou a produtividade, reduzindo a safra em até 20%.

Isso, associado ao fato de que os estoques remanescentes de anos anteriores foram reduzidos, sugere um aquecimento na atividade para 2015, e tanto as empresas quanto os produtores querem aproveitar o cenário favorável. Na Bahia, a cadeia é estruturada em três instâncias: a produção de folhas para capa de charuto, boa parte dela assumida pelas próprias fumageiras, com destaque para a Danco (do grupo Dannemann); a produção de tabaco para enchimento, segmento em que sobressaem Fumex Tabacalera, Danco e Ermor Tabarama (esta vinculada ao grupo Universal Leaf); e, por fim, as fabricantes de charutos, com presença de empresas como Menendez Amerino, Dannemann, Monte Pascoal, Josefina, Chaba, Luiz Sandes, San Francisco São Salvador, MR, entre outras.

Tabaco para charuto garante boa rentabilidade a famílias baianas (foto: Inor Assmann)

Tabaco para charuto garante boa rentabilidade a famílias baianas (foto: Inor Assmann)

UMA ESCOLHA NATURAL

Pelas estimativas do Sinditabaco-BA, a área de cultivo reservado para a produção de capa situa-se entre 500 e 550 hectares. Já a de folhas normais para enchimento fica entre 8 e 10 mil hectares. Além da Bahia, ainda permanecem atuantes nesse segmento produtores das regiões de Arapiraca, em Alagoas, e igualmente do Rio Grande do Norte, onde ainda é expressiva a produção de fumo de corda, para ser picado. Há forte probabilidade de o sindicato nos próximos anos passar a representar igualmente essas áreas. “De Alagoas, por exemplo, segue muita capa para charuto para a América Central e até para a Alemanha”, refere Strada.

Segundo ele, a supremacia do tabaco como atividade econômica no cenário do agronegócio baiano segue evidente, apesar do arrefecimento de comércio e mercados, motivado muito mais por decisões de governo que, através da tributação, limitaram a competitividade interna e externa dos charutos brasileiros. O produtor na Bahia cultiva cerca de 0,5 a um hectare com tabaco. O lucro líquido para a família fica em R$ 8 mil a R$ 9 mil, e isso em anos que não têm sido tão favoráveis aos negócios. “É uma receita excelente”, frisa.

Strada menciona que as alternativas mais imediatas testadas na região em projetos de diversificação oferecem retorno pífio em comparação com o do tabaco. “Sugeriram que o produtor optasse por cultivo de mandioca, ou de citros”, comenta. “Mas imagina implantar tais culturas em menos de um hectare. Como uma família iria se manter? E onde haveria mercado par absorver uma produção mais ampla?”. No caso de laranja ou limão, que só começam a produzir depois de quatro anos, a área reduzida permite manter de 30 a 50 plantas. Já no cultivo de mandioca, a mesma área permite obter sete toneladas de raiz. Comercializada a R$ 100,00 por tonelada, renderia R$ 700,00 por safra. Pela relação custo-benefício, compreende-se por que a escolha já esteja feita.

Tabaco do tipo Burley está ganhando força na Bahia (foto: Inor Assmann)

Tabaco do tipo Burley está ganhando força na Bahia (foto: Inor Assmann)

BURLEY NA BAHIA

A Bahia também começa a receber investimentos para o cultivo de fumos da variedade Burley, cujo maior volume de produção está concentrado na região Sul do Brasil, junto às tradicionais áreas de Virgínia. Conforme Odacir Tonelli Strada, presidente do Sinditabaco-BA, a empresa Philip Morris vem estimulando a implantação de lavouras de Burley na região Oeste, não muito distante de Barreiras. Representantes da empresa, que ainda não foi contactada pelo Portal do Tabaco, estariam realizando reuniões frequentes com entidades da cadeia produtiva e também com instâncias governamentais no Estado. O Burley, cuja planta, quando madura, é cortada inteira e secada pendurada, a céu aberto, ajustaria-se perfeitamente bem às características de clima dessa região do Nordeste.

Romar Beling
romar@editoragazeta.com.br
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