ENTREVISTA: José Otávio Machado Menten*

* Engenheiro agrônomo, presidente do Conselho Científico para Agricultura Sustentável (CCAS), mestre em Fitopatologia, doutor em Agronomia e pós-doutorados em Resistência e Epidemiologia (Holanda), Patologia de Sementes (Dinamarca) e Biotecnologia (Cambridge, Inglaterra).

Fonte: SindiTabacoNews, setembro a dezembro de 2019

Quais são os principais mitos em torno do tema agrotóxicos no Brasil?

Um deles é que o Brasil é o maior consumidor de produtos fitossanitários do mundo. Isso não é verdade, principalmente porque a maneira de se expressar o consumo não é, de forma alguma, a quantidade dividida pelo número da população, e sim a quantidade de ingrediente ativo por unidade de área ou por unidade de produtos colhidos. Outro mito é que aqui no Brasil são utilizados produtos que estão banidos em outros países, principalmente na Europa. O que ocorre é que culturas como a soja e a cana-de-açúcar, típicas do Brasil, têm pragas diferentes e, então, aqui há a necessidade de produtos que em outros lugares não são necessários. Da mesma forma, existem alguns produtos que são utilizados na Europa e não são aqui, como os de controle de pragas de oliveiras e de cereais de inverno. Um outro mito é o de que nossos alimentos contêm resíduos de produtos fitossanitários. Os monitoramentos feitos têm mostrado que os nossos alimentos estão dentro do padrão internacional.

Qual é a posição do Brasil no ranking de utilização de agrotóxicos em relação a outros países?

Dependendo do indicador, essa classificação do Brasil no ranking do consumo de produtos pode variar. Uma das maneiras corretas de se indicar esse consumo é a quantidade de ingrediente ativo por hectare. E existem avaliações internacionais que mostram que o Brasil é o 44° país em termos de consumo. Nós devemos lembrar que nossa agricultura é feita em um país tropical e em regiões tropicais a quantidade e severidade de pragas é muito maior, exigindo um manejo mais intenso, incluindo o uso dos produtos fitossanitários. Mesmo nessas condições, nós utilizamos muito menos defensivos do que diversos países que têm controle ambiental e toxicológico muito forte, como é o caso do Japão, Holanda e outros países europeus.

Qual é a quantidade média de agrotóxicos usada por hectare no Brasil?

Esse é um número considerado racional e eficiente? Se considerarmos apenas a área cultivada com grãos, frutíferas e hortaliças, a quantidade é em torno de 4 quilos de ingrediente ativo por hectare. Se incluirmos, além dessas culturas, também a área com pastagens, esse número cai a 1,5 quilos por hectare. Trata-se de uma quantidade racional, que está em níveis semelhantes aos de diversos países da América Latina e da Ásia, que são regiões tropicais. Ou seja, o agricultor brasileiro usa a quantidade necessária para proteger os seus cultivos das pragas e esses produtos só são utilizados quando outras medidas de manejo – como cultivares resistentes, práticas culturais adequadas e controle biológico – não são suficientes para manter o nível populacional das pragas abaixo do nível de dano econômico. Uma pesquisa da Esalq/USP mostrou que o tabaco é a cultura comercial que menos utiliza agrotóxicos no Brasil.

Como o senhor avalia o dado em comparação com outros produtos agrícolas?

O desenvolvimento de cultivares, por exemplo, de algodão, proporciona a ocorrência de um número relativamente grande de pragas e isso faz com que a cultura do algodão seja uma das que têm maior utilização de defensivos agrícolas. Por outro lado, na cana-de-açúcar a quantidade utilizada é bem mais baixa, praticamente apenas herbicidas, porque as doenças são controladas pela disponibilidade de variedades resistentes a fungos, bactérias e vírus e os insetos são controlados pela ação dos inimigos naturais e dos defensivos biológicos. A cultura do tabaco, por suas características, leva a necessidade de aplicação muito baixa de produtos fitossanitários, algo em torno de 1 quilo de ingrediente ativo por hectare. E isso pode ser observado na análise do custo de produção da cultura, pois a quantidade de defensivos é uma das mais baixas entre as espécies cultivadas no Brasil. Com isso, percebe-se que, no tabaco, as outras medidas de manejo – incluindo os métodos genéticos, culturais, físicos e biológicos – funcionam muito bem, de maneira eficiente, fazendo com que a utilização do método químico de controle, tenha uma intensidade muito mais baixa do que em outras culturas.

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