Coluna Por Dentro da Safra: da lavoura à indústria

Por: Giovane Luiz Weber, produtor de tabaco

Novos olhares sobre o tabaco

Olá, pessoal! Tudo bem? Hoje vamos aproveitar para compartilhar com um pouco mais de detalhes alguns aspectos que nos chamaram a atenção durante nossa viagem realizada na semana passada pelos três estados da região Sul do Brasil. Como já comentamos na coluna da semana passada, e que os leitores puderam acompanhar, deixamos Santa Cruz do Sul no domingo, dia 26 de maio, bem cedinho, e fizemos uma primeira parada em Vale do Sol, na propriedade de Tiago Konrad.

Depois, ainda no domingo, seguimos rumo a Santa Catarina, onde chegamos ao final do dia, e pernoitamos na casa da família Toigo, em Água Doce. De lá, na segunda-feira pela manhã, pegamos a estrada e chegamos a Ivaí, no Paraná, situada a 800 quilômetros de Santa Cruz do Sul, onde visitamos a propriedade da família Rebinski. Ainda na mesma segunda-feira nos deslocamos a Imbituva, também no Paraná, e de lá na terça-feira dirigimos por cerca de 100 quilômetros até a propriedade de Gilmar Vasco, em Palmeira. Chegamos ali por volta das 8h30, abaixo de muita chuva.

Por fim, por volta das 11 horas, seguimos em direção a Rio do Sul (SC), enfrentando muitas subidas e descidas, e lá pernoitamos. Rio do Sul é uma cidade muito movimentada, bem mais do que eu esperava, e fica próximo de Ituporanga, a Capital da Cebola. De lá, na quarta pela manhã, começamos a descer em direção a São João do Sul (SC), que já fica muito perto da divisa com o Rio Grande do Sul. No caminho percorremos a famosa Serra do Rio do Rastro, onde as curvas e os paredões assustam.

Em São João do Sul visitamos a propriedade do Tiago Nascimento e de seu sogro Taico, que plantam tabaco e decidiram investir em cultivo de pitaia. Depois de visitar essa família, voltamos um pouco para pernoitar em Araranguá e de lá, no dia 30, quinta-feira, de manhãzinha, às 7 horas, iniciamos a viagem de volta a Santa Cruz do Sul, chegando em casa ao meio-dia.

Havíamos percorrido nada menos do que 2.122 quilômetros pelos três estados do Sul, e pudemos conferir muitas coisas interessantes associadas à diversificação nas propriedades que plantam tabaco. Cabe agradecer imensamente pela receptividade e acolhida que tivemos em todas as propriedades, e pelas informações tão preciosas que nos foram transmitidas, que podem servir de inspiração para outros produtores rurais. Aqui, nesta edição, decidimos compartilhar ao menos três momentos especiais que vivenciamos nessa jornada. Espero que curtam! Um grande abraço e boa semana para todos.

Entre a lavoura e as pitaias

Enquanto na região de Santa Cruz do Sul muitas famílias ainda estão em meio à comercialização da safra, em São João do Sul (SC), perto da divisa com o Rio Grande do Sul, já há tabaco plantado na lavoura para a nova safra. O produtor Tiago Nascimento, 30, e seu sogro, conhecido como Toico, 59, têm 95 mil pés plantados, metade já com 40 dias na lavoura, e metade recém-plantada. A propriedade é muito bem-organizada, bastante plana, e a variedade que adotam permite que, tirada a baixeira e a flor, a planta fique com cerca de 28 folhas, sendo que proporciona 13 arrobas por mil pés.

Em áreas próximas, como em Içara e Criciúma, já há até produtores começando a colheita. Claro que há algum risco de geada, mas bem menor do que aqui na região de Santa Cruz, uma vez que se trata de área litorânea, a uns oito a nove quilômetros em linha reta do mar. Quase sempre tem brisa soprando, e eles, de todo modo, cultivam variedade de tabaco bastante resistente a geada.

Esse tempo úmido, com poucos dias de sol, faz com que as mudas acabem adoecendo muito fácil. Mesmo o tabaco que já está na lavoura não se desenvolve direito, podendo sofrer com ataque de lesmas e do chamado olho-de-boi, nas folhas que já estão na lavoura. No canteiro não acontece tanto, mas é preciso estar sempre com os tratamentos em dia, seguindo à risca a recomendação técnica, na dose e na data certas.

De olho na diversificação, Tiago e seu Taico decidiram investir em pitaia. Começaram com quatro pés, e hoje têm 5 mil pés, num cenário impressionante. Mesmo assim, o tabaco segue sendo, e parece que vai ser sempre, a principal renda da propriedade. Segundo eles, foi justamente isso que forneceu o dinheiro para o investimento em pitaia. E a pitaia só começa a produzir a partir do terceiro ano, de maneira que é preciso ter renda garantida, que é a do tabaco, ao longo desse período.

A vantagem das duas culturas é que a pitaia começa a amadurecer entre dezembro e abril, e no tabaco a colheita termina por volta de novembro. Ou seja, quando aqui no Sul a gente está no auge da colheita, em São João do Sul já estão encerrando a safra, e assim podem cuidar da pitaia sem atrapalhar em nada o tabaco.

Tiago e seu Toico também investiram em uma plantação com cinco mil pés de pitaia

A estufa de carga contínua dos Vasco

Em Palmeira, no Paraná, na terça-feira, dia 28 de maio, pela manhã, abaixo de chuva, fomos conferir a propriedade de Gilmar Vasco e de sua esposa Vanderleia. Chegamos por volta das 8h30, e pudemos conferir muita coisa interessante. Juntamente com seus irmãos, Gilmar planta 120 mil pés de tabaco e ainda administra em paralelo um parreiral com 1.600 pés de uva.

E foi a primeira safra que secou em um novo modelo de estufa, o chamado forno de carga contínua. O investimento é bastante alto, na faixa de R$ 140 mil, mas Vasco argumenta que a longo prazo compensa, pois há menor gasto em mão de obra, lenha e energia elétrica. Com esse modelo de estufa, a partir do momento em que começa a colher, o produtor precisa colher todo dia. No que enche a primeira gaiola, a primeira portinha, das oito que o forno tem, passa a colher todo dia. No que liga os motores e acende o fogo, mantém assim até a última folha ser retirada da lavoura, em dois a três meses de colheita.

Essa estufa tem dois modelos, um menor e outro maior, como é o dos Vasco. Uma das diferenças desse forno pode ser vista na capacidade dele. A família planta 120 mil pés com um só forno, algo que jamais seria possível com uma estufa convencional, como bem sabem os produtores de nossa região. Quanto à mão de obra, ele e dois irmãos saem de manhã para a colheita e ao meio-dia já encheram uma das portinhas do forno. Assim, no resto do dia ficam livres para executar outras tarefas.

E com isso investiram em uma parreira, dentro de um programa de diversificação da Prefeitura do município. Conseguem vender bem as uvas, e até estão fazendo sucos e vinhos, mas o problema é que implantaram uma única variedade, que fica bastante concentrada em termos de tratos culturais. Na região, começam a semear o tabaco agora em junho, e iniciam a colheita uma a duas semanas antes do Natal. É justamente quando a uva também começa a amadurecer, o que acaba fazendo com que o trabalho, tanto no tabaco quanto na uva, precise ser feito todo ao mesmo tempo.

Gilmar Vasco e a esposa Vanderleia investiram em um forno de carga contínua, com oito portas para o tabaco

Família Vasco implantou 1.600 pés de uva para diversificar

Em Ivaí (PR), é hora de colher feijão

Em Ivaí, no Paraná, encontramos a família Rebinski, o pai, Miguel, 46, e os filhos Marcelo, 20, e Fernando, 18, ocupados na colheita do feijão. Eles plantaram nada menos do que 18 sacos de 60 quilos, o que significa 1.080 quilos plantados. Isso é muito feijão! Ocuparam cinco alqueires com a cultura, que eles plantam em dois momentos ao longo do ano, fazendo a safra e a popular safrinha.

Na semana passada, os Rebinski estavam aproveitando para agilizar a colheita. Os cinco alqueires vão render cerca de 200 sacos de feijão, o que é considerado produção baixa, porque no desenvolvimento da lavoura houve seca, e justo agora, na colheita, choveu demais.

O retorno financeiro é sempre uma incógnita. Na época em que fizeram o plantio, a saca de feijão de 60 quilos valia R$ 250,00. Agora, quando estão colhendo, está em R$ 120,00. Ou seja, estão recebendo R$ 130,00 a menos do que quando plantaram! Com esse valor, multiplicado por 200 sacos, vão obter renda de cerca de R$ 24 mil. Por aí já dá para entender por que muitos nessa região e em todo o Sul do Brasil apostam tanto no cultivo do tabaco.

Quando chegamos à região, na segunda-feira, dia 27, finalmente o sol havia aparecido, depois das chuvaradas, e pai e filhos estavam envolvidos na colheita. No dia seguinte já a chuva voltou. Por lá há muito morro e encosta, e o trabalho de arrancar o feijão é manual. Eles o colocavam em montes e depois os cobriam com lonas de plástico para protegê-lo, para que não umedecesse, o que nem sempre dá certo. Muitas vezes, mesmo debaixo dessa cobertura, ele começa a mofar, o que compromete a sua qualidade e até complica a venda.

Feijão foi tapado com lona de plástico por causa da chuva

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