Brasília começa a discutir o futuro do mercado de tabaco

Por: Pedro Garcia*

Brasília/DF – Um momento muito aguardado pela cadeia produtiva do tabaco acontece nesta quinta-feira, 8, com a audiência pública da Agência Nacional da Vigilância Sanitária (Anvisa) que vai discutir a possível liberação da comercialização de cigarros eletrônicos e produtos de tabaco aquecido no Brasil. A audiência, na sede da Anvisa, em Brasília, terá cobertura da Gazeta Grupo de Comunicações.

Embora legalizados em vários países, os chamados dispositivos eletrônicos para fumar (DEFs) são proibidos no Brasil desde 2009, por resolução da Anvisa. Atualmente, autoridades e pesquisadores da área médica discutem se esses produtos são, de fato, menos danosos à saúde humana ou se há outros riscos associados a eles.

A audiência pública começará às 8h30 e deve se estender até o fim da tarde. Segundo a programação divulgada nessa quarta, os trabalhos iniciarão com explanação sobre o processo regulatório e depois serão feitas as apresentações de palestrantes convidados.

Os primeiros a falar serão representantes da Comissão Nacional para Implementação da Convenção-Quadro para o Controle do Tabaco (Conicq), que devem defender a manutenção da proibição dos produtos. Depois falarão representantes das empresas de tabaco, da Associação Brasileira da Indústria do Fumo (Abifumo) e do Sindicato Interestadual da Indústria do Tabaco (Sinditabaco). Na sequência devem se manifestar dirigentes de instituições de ensino e pesquisa, de associações médicas e de ONGs.

Um palestrante será o presidente do Sinditabaco, Iro Schünke, que deve destacar a importância econômica e social da cadeia produtiva. “Este é um tema que não tem volta. É importante que o Brasil esteja aberto a estes novos produtos, pois isso poderá trazer outros benefícios para o País, que já possui tradição mundial no setor”, disse. A audiência é apenas uma das etapas do processo que pode levar à liberação dos dispositivos. Estão previstos ainda outros mecanismos de participação social, como consultas dirigidas, diálogos setoriais e consulta pública.

*O repórter está em Brasília a convite da empresa Souza Cruz.

ENTREVISTA

Chris Proctor Diretor científico de produtos de risco potencialmente reduzido do Grupo British American Tobacco (BAT), controlador da Souza Cruz

Gazeta – Por que os dispositivos eletrônicos para fumar são importantes?
Proctor – Passamos muito tempo tentando desenvolver um cigarro menos prejudicial à saúde, introduzindo novas formas de beneficiamento de tabaco e novos modelos de filtros, mas os estudos clínicos não revelaram diferenças muito significativas em relação aos cigarros tradicionais, por conta da fumaça. Com o avanço dos eletrônicos, conseguimos chegar aos vaporizadores e aos produtos de tabaco aquecido, nos quais o tabaco não é queimado, apenas aquecido, e isso significa que os componentes tóxicos e os prejuízos são reduzidos. E agora temos toda uma gama de diferentes produtos, porque sabemos que os fumantes gostam de fumar.

Gazeta – Como podemos ter certeza de que esses produtos são menos prejudiciais à saúde?
Proctor – É uma boa pergunta. Nós os chamamos, na verdade, de produtos de risco potencialmente reduzido, porque não sabemos exatamente qual o tamanho dessa redução. Ainda há um risco, não há como eliminá-lo por completo. Em relação aos cigarros eletrônicos, já existem estudos independentes que mostram que eles são até 99% menos tóxicos. Se isso significa que eles são 99% mais seguros, ainda não sabemos, porque não temos estudos de longo prazo ainda. Mas acreditamos que há grande vantagem em relação aos cigarros convencionais. Em relação ao tabaco aquecido, há menos certezas. Na Inglaterra, fala-se em redução de 90% no risco, mas esse dado não é aceito por muitas autoridades públicas de saúde. O que as nossas pesquisas vêm mostrando é que todos esses produtos possuem menos componentes tóxicos e o que estamos analisando agora são as consequências biológicas disso.

Gazeta – Como são feitas essas pesquisas?
Proctor – Há dois jeitos. Em laboratórios, fazemos experimentos com células humanas. Mas o mais importante são os estudos clínicos de longo prazo que fazemos com voluntários, pessoas que são fumantes e passam a usar esses novos produtos ou deixam de fumar. E então analisamos quais as alterações biológicas em suas células. Por meio de amostras de sangue e urina, verificamos se os riscos de doenças cardíacase câncer se alteram.

Gazeta – Alguns países, como o Reino Unido, estão bem avançados em relação ao Brasil no que toca ao uso desses dispositivos.
Proctor – No Reino Unido, há preocupação de há muito tempo com a redução dos danos causados pelo tabagismo. Assim como ocorre no Brasil, acredita-se que é preciso regulação forte sobre os cigarros. Mas lá também existe a visão de que é preciso tornar os produtos de risco reduzido mais populares. Por isso é realizada publicidade institucional acerca de cigarros eletrônicos e agora estão até implantando salas em hospitais onde é permitido consumir esses produtos. Além disso, os médicos orientam os fumantes a utilizarem esses dispositivos para tentar parar de fumar. O Reino Unido é, provavelmente, o país que foi mais longe nessa questão. Outros são mais cautelosos.

Gazeta – E quanto à preocupação de que eles poderiam servir como uma iniciação ao tabagismo para não fumantes?
Proctor – Sempre há potencial para isso, é preciso cuidado. Por isso, a regulação é tão importante. O motivo pelo qual existe tanta confiança a respeito desses produtos na Inglaterra é que, ano após ano, são realizadas pesquisas para avaliar o que acontece com as pessoas. E o índice de menores de idade utilizando cigarros eletrônicos é muito baixo. Nos Estados Unidos, a situação é diferente, mas lá a regulação ainda não está consolidada. Por isso, penso que o Brasil tem grande oportunidade de verificar qual a regulação que permite que esses produtos não funcionem como via de entrada, e sim como maneira de fumantes pararem de fumar.

Gazeta – É correto dizer, então, que esses produtos devem ser voltados apenas a fumantes?
Proctor – Sim, eles precisam ser voltados a adultos que consomem nicotina. O que vemos são muitas pessoas que não conseguem parar de fumar e, quando encontram esses novos produtos, acabam migrando para eles.

Gazeta – Que tipo de regulação precisa existir?
Proctor – É preciso restrições de idade. Também é preciso permitir a publicidade, para que as pessoas tomem conhecimento sobre os produtos, mas uma publicidade apropriada e voltada a adultos. Na Europa, há restrições em relação à quantidade de nicotina nos líquidos utilizados nos vaporizadores. E o mais importante é a realização permanente de pesquisas para garantir que as regulações levem ao que se deseja.

Gazeta – O que é certo, portanto, é que independente do produto, ainda haverá consumidores por muito tempo?
Proctor – Vai haver demanda por nicotina durante muitos anos. E, na verdade, ainda haverá demanda por cigarros tradicionais. Mesmo quando houver alternativas, ainda existirão pessoas que vão dizer “eu quero o cigarro”. O consumo de cigarros está caindo, mas essa queda é lenta. Em alguns lugares é mais rápida, como no Reino Unido, onde as pessoas são estimuladas a migrar para outros produtos, mas em outros países isso se dá forma lenta.

Gazeta – Qual dos novos produtos tem mais potencial?
Proctor – Isso vai depender muito do país. No Japão, o tabaco aquecido é muito popular. Em lugares como o Reino Unido, os cigarros eletrônicos se tornaram bastante populares porque o governo adotou postura forte em relação a eles. Já na Grécia, temos tanto os eletrônicos quanto o tabaco aquecido e os cigarros tradicionais. O importante é termos diferentes tipos de produtos para que o consumidor possa escolher.

Gazeta – A expectativa em relação à liberação desses produtos no Brasil é positiva?
Proctor – Acho que vai ser uma discussão muito interessante. O Brasil é um dos líderes mundiais em controle de tabaco. Assim como Canadá e Reino Unido, aqui foi feito praticamente tudo o que se podia para reduzir o tabagismo, incluindo a proibição da publicidade e a regulação das embalagens. Então, não será apenas uma discussão científica, mas também filosófica. Qual caminho o país quer seguir a partir de agora? Quer partir para a redução dos prejuízos associados ao consumo de produtos fumígenos ou quer manter a política atual e ver o que acontece? Penso que, quanto mais evidências forem trazidas para o debate, mais perto estaremos de rever a proibição.

Gazeta – Como isso pode afetar a produção de tabaco?
Proctor – O tabaco certamente será parte importante de nosso futuro. E o Brasil, em particular. Boa parte das folhas de tabaco que utilizamos em todo o planeta vem do Brasil. Não estamos apenas buscando novos produtos, mas alternativas de uso para o tabaco. Então, penso que há um futuro brilhante para o tabaco, principalmente o brasileiro, por conta da expertise que vocês possuem.

Share

Adicione um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *