ANÁLISE: O ÂNIMO JÁ PARECE SER OUTRO

Romar Beling

Romar Beling

Santa Cruz do Sul/RS – Chega-se a junho e, como de tradição, a comercialização da safra de tabaco ingressa na reta final. Estimativas dão conta que cerca de 20% a 25% do volume da temporada ainda está nos galpões dos produtores do Sul do Brasil. Ou seja, em torno de 3/4 da safra já foram negociados. No caso específico do Burley, quase a totalidade da produção foi entregue às indústrias.

A surtição e o enfardamento das folhas, como de praxe, está mais atrasada nas partes altas, principalmente no Centro-Serra do Rio Grande do Sul, onde se planta mais tarde. Agora, quando as áreas baixas já lidam há semanas com os canteiros de mudas da nova safra, na iminência de fazer o novo plantio, as áreas altas ainda estão às voltas com as folhas colhidas no último ciclo.

Fato novo no meio rural nas últimas semanas é a atuação de atravessadores – que os agricultores chamam de picaretas. Eles adquirem volumes de tabaco de alguns produtores, diretamente nas propriedades, remunerando com base em negociações feitas no ato. Em várias localidades de municípios da região há relatos de que alguns desses compradores individuais estariam pagando cerca de R$ 110,00 por arroba para a produção inteira da família, incluindo todas as classes, do baixeiro à ponteira.

É uma média de preço superior à que se verificava há um mês nas compras praticadas pela indústria e suficiente para gerar ânimo entre os agricultores. A ironia é que essa elevação do valor ocorre justamente quando a grande maioria já negociou a produção – e, portanto, não pode mais se beneficiar dessa mudança positiva do cenário.

O velho argumento da oferta e da procura, ou da melhoria do cenário do mercado nacional ou internacional, acaba não servindo de consolo para estes: a safra de uns rendeu pouco, ou bem menos, enquanto os que seguraram o tabaco nos galpões até a reta final são, uma vez mais, beneficiados. Certamente, tal contexto não faz bem a qualquer discurso de união ou de estruturação séria do setor.

MAIS SATISFEITOS

Com a ação dos atravessadores, os agricultores se deixam convencer pela perspectiva de melhor rentabilidade e, assim, descumprem o contrato junto às empresas. Ao mesmo tempo, há famílias que não haviam assinado contrato com alguma empresa, tendo feito o plantio por conta, como dizem, e a produção delas igualmente interessa aos atravessadores. Estes, depois, naturalmente comercializam precisam comercializar os volumes adquiridos junto às indústrias, muitas delas receptivas a essa estratégia, pois permite que ajustem seus estoques ou suas reservas de determinas classes.

Ao lado da compra feita por atravessadores, as próprias indústrias nas últimas semanas estariam adquirindo tabaco com menos rigor na classificação, elevando mais as médias junto às esteiras de descarregamento. O resultado é que os agricultores que deixaram para comercializar a safra na reta final se dizem mais satisfeitos com a receita obtida. E, efeito natural, já se ouve produtores dizendo que vão plantar “um pouco mais, para recuperar o que deixou de ganhar nesse ano”.

Mudas que darão origem às lavouras da nova safra já são preparadas no Sul do Brasil (foto: Inor Assmann/Editora Gazeta)

Mudas que darão origem às lavouras da nova safra já são preparadas no Sul do Brasil (foto: Inor Assmann/Editora Gazeta)

E A DIVERSIFICAÇÃO?

Em muitos casos, o comentário é que “semeamos um pouco mais” para fazer mais mudas – logo, para plantar mais, na contramão das orientações das lideranças da cadeia produtiva, de diminuir o plantio e a produção na nova safra, para se adequar às perspectivas de mercado. No meio rural, basta a comercialização correr mais solta para que caia por terra o discurso pessimista, e para que o otimismo se reinstale.

Uma pena que, se a maioria dos produtores teve dificuldade para comercializar com boa rentabilidade a safra 2014/15, a lógica sugeriria prudência. Muitas famílias tiveram a renda comprometida justamente porque apostaram todas as fichas na monocultura do tabaco, o que é negativo para essa própria cultura, que assim fica com o ônus e o compromisso de prover economicamente a propriedade. O bom senso deveria aconselhar os produtores a, seguindo a sugestão das entidades, efetivamente reduzir a área de plantio, cuidar melhor da plantação e colher tabaco de melhor qualidade.

Com essa diminuição, sobrariam inclusive tempo e mão de obra para cuidar de outras culturas, entre elas as de subsistência alimentar, que andam negligenciadas nas últimas safras, fazendo falta tremenda em tempos de crise. Só se consegue fazer diversificação de um jeito: dedicando tempo e atenção a outras fontes de renda. Se a cada ano o produtor adia de novo esse compromisso, em nome da comodidade, o preço, ao final, quem paga é sempre ele.

Romar Beling/Jornalista especializado na cobertura de tabaco no Sul do Brasil
romar@editoragazeta.com.br
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