ANÁLISE: Na COP, no fim das contas, tudo se resume à receita

Moscou, Rússia – O maior evento mundial na área das campanhas antitabagistas chega ao seu encerramento, neste final de semana, tendo abordado um tanto de quase tudo, e muito pouco de saúde. É essa a impressão que fica a quem, olhando de fora o terreno das discussões e dos debates, acompanhou as atividades na COP 6, a Conferência das Partes da Convenção-Quadro para Controle do Tabaco (FCTC, na sigla em inglês), realizada em Moscou, na Rússia.

Pela programação oficial, o evento deveria ter sido concluído nessa sexta-feira, mas a complexidade e o imbricado dos temas e das medidas em análise nos diversos grupos, associados aos artigos e prevendo implementações, fizeram com que os trabalhos se estendessem noite adentro e, mais, avançassem mais um dia. Assim, é provável que um documento final, com aprovação em plenária, só venha mesmo a ser apresentado por volta das 13 horas deste sábado.

A delegação do governo federal brasileiro iniciou seus trabalhos na COP 6 sentindo a pressão externa da comitiva de lideranças e de autoridades que se deslocaram dos estados do Sul do Brasil e da Bahia para acompanhar de perto o processo. Sob a mira dessa força-tarefa da sociedade, os membros tornaram-se especialmente irredutíveis quanto aos interesses do País nos vários artigos, a ponto de fincar pé e motivar inconformidades nos grupos.

Um dos temas era o que prevê, no artigo 17, a diversificação nas lavouras de tabaco. Em conformidade com o documento que a delegação já trazia da Comissão Nacional para Implementação da Convenção-Quadro (Coniq), foi defendida a participação direta e ativa dos produtores rurais na definição das políticas e de busca de alternativas de renda para as propriedades rurais. E esse tema está definitivamente incorporado.

“Isso é o que nós queremos desde sempre”, salienta o presidente da Associação dos Fumicultores do Brasil (Afubra), Benício Albano Werner. “Se tem alguém que conhece a realidade e tem noção do que pode ou não ser adotado na diversificação na região fumageira são os agricultores que, por sinal, já adotam vários cultivos há muito tempo. As lavouras de tabaco ocupam área bastante pequena nas propriedades; no entanto, geram mais da metade da receita auferida pelas famílias. Por isso é que manter essa cultura, por seus benefícios econômicos e sociais, é tão importante para nós.” Com a iminente aprovação em plenária do documento final, cuja redação estava concluída ao final da tarde dessa sexta, a voz dos produtores nesse processo estaria assegurada, resguardando inclusive as vontades e as peculiaridades de cada nação.

A COP 7

Nestes últimos momentos de COP 6 também deverá ser anunciada a sede da próxima edição da Conferência das Partes. A princípio, a Índia vinha sendo mencionada como possível nação a receber as delegações que fazem parte desse organismo, mas nessa sexta-feira, durante a coletiva que concedeu à imprensa, a secretária da FCTC, Vera Luiza da Costa e Silva, ventilou a possibilidade de a COP 7 acontecer em Genebra, na Suíça.

Se for esta a escolha, ela sinaliza para uma intuição da comitiva de lideranças brasileiras, a de que a FCTC está buscando a contenção de custos, de maneira que todo o staf da organização poderia permanecer na cidade-sede de seus trabalhos. A busca de maneiras para ampliar a receita para as campanhas antitabagistas e as sugestões expressas, em vários documentos, de contenção e de redução de custos, levaram a esse entendimento.

Romar Beling/enviado especial
romar@anuarios.com.br
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