ANÁLISE: É VER PARA CRER

Romar Beling é jornalista

Romar Beling é jornalista

A iniciativa das entidades responsáveis pela organização da cadeia produtiva do tabaco e pela análise da realidade dos negócios – produção, mercado, custo-benefício, geração de renda – de se antecipar em medidas e orientações para a próxima safra é mais do que significativa. Em várias ocasiões, na história recente, houve alertas ou sugestões de adequação da lavoura à realidade do mercado, mas costumavam vir sem tamanho consenso.

A evidência de que a produção brasileira precisa criar sintonia com as regras de um novo tempo agora é gritante. Não é um faz-de-conta. É claro que o próprio cenário econômico nacional assusta: quando a imensa maioria de nações retoma o crescimento mundo afora, o Brasil patina em desmando, corrupção, aumento da inflação e perda de capacidade de investimento.

A dúvida que certamente deve estar pairando entre todos os que acompanham o segmento do tabaco (empresários, lideranças, especialistas, a própria imprensa) é até que ponto lá no meio rural, nos domínios de cada pequena propriedade (e são mais de 160 mil famílias produtoras na região Sul do Brasil, na atualidade), esse recado será realmente ouvido. E compreendido. Mais: caso seja compreendido, se de fato será acatado.

Afinal, entra ano sai ano, o que mais se constata é que as condições de lucratividade ou renda dependem principal e especialmente do agricultor. Se ele planta além da conta, se ele exagera na oferta (e sempre anda exagerando), isso se volta justamente contra ele próprio. De certo modo, ele complica a sua própria atividade.

A MAIOR TAREFA

Justamente por isso, talvez o maior desafio que a cadeia produtiva do tabaco tem nesse momento no Brasil é de fato convencer os produtores a reduzirem a área plantada – e, por extensão, os volumes de produção. De imediato, poderiam aproveitar melhor a mão de obra disponível, talvez até prestar mais atenção a alternativas de renda, limitar os custos com insumos (muito caros) e zelar mais pela qualidade (que andou ignorada ou esquecida), colhendo na hora e no ritmo certo. Assim, o produtor colheria mais por área, com melhor qualidade, teria bom retorno e seu tabaco seria disputado pelos clientes, dentro e fora do País – onde há mercado, mas a concorrência aumentou.

Agora, se quando um produtor reduz em 20% o plantio, o vizinho, achando-se esperto, aumenta o seu em 20%, é muito provável que, como o mercado o demonstra, todos sairão perdendo. Todos. Os dois vizinhos, a cadeia produtiva, a imagem do tabaco brasileiro no exterior e, naturalmente, os municípios envolvidos, as regiões que apostam nessa cultura e a balança comercial do Brasil, tão carente de moeda sonante.

Romar Beling
romar@editoragazeta.com.br
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